É engraçado como a vida nunca segue o script que definimos, não é?
A Andressa de 15 anos, como uma boa capricorniana, tinha tudo planejado.
Me peguei fazendo mentalmente a trend que bombou umas semanas atrás, fui tomar um café com ela, a representante da sala, a melhor aluna da turma, a filha exemplar e tantas outras características boas que ela tinha.
A gente se encontrou e ela, com aquele cabelão, um piercing no nariz e outro no umbigo, chegou na hora exata, atrasos nunca foi algo que a gente gostasse. Eu me atrasei, tive que organizar meu filho antes de sair, acontece quase sempre.
Ela começou perguntando quantos anos eu tinha e eu disse: 34! Chegamos na idade dos sonhos. Você sempre desejou chegar nos 30 e nós chegamos.
Ansiosa como sempre, ela perguntou sobre nossos planos e me mostrou as anotações na agenda cor de rosa. Eu ri, pedi para ela respirar fundo e ter calma. A vida saiu dos trilhos!
Pude enxergar a frustração dela no olhar e na cara, disfarçar as reações nunca foi nosso forte mesmo.
Comecei contando para ela que a gente tinha realizado um dos nossos maiores sonhos, tínhamos um filho lindo, do cabelinho cacheado, mas que ele não se chamava Théo, se chama Valentim. Ela riu e eu entendi, usávamos esse sobrenome nas redes sociais.
"Mas espera aí? Não casamos com o nosso príncipe encantado?", casamos. Mas a vida adulta é muito complexa e nosso conto de fadas durou o tempo que tinha que ter durado, não tínhamos mais um príncipe encantado do lado. A princesa teve que aprender a se virar sozinha.
Mais uma vez senti a decepção vindo dela. "Pelo menos temos nossa casa com um redário? Um emprego público legal?", também não.
"Demos errado então, né?". Eu entendi a angústia dela, éramos boas demais em tudo. Como poderia ter dado errado se a gente sempre se destacava? Se sempre conseguíamos o que queríamos?
Aí é que tá, Andressa. Não temos controle de nada e descobrir isso doeu. Quando eu entendi que nossos planos eram meros rascunhos, eu também enlouqueci.
Contei para ela sobre tudo que aconteceu, sobre as amigas que ainda são as mesmas, sobre o quanto amamos nosso corpo, sobre como tenho buscado diariamente resgatar a força que tínhamos, sobre resiliência, descobertas e sobre o poder de acreditar no melhor, ainda que as coisas saiam do nosso controle.
Ela me perguntou sobre romances, sobre a faculdade, pediu para eu contar algumas histórias e eu contei. Demos boas risadas e eu enxerguei tudo aquilo que havia perdido ao longo dos anos, a vitalidade de uma menina cheia de sonhos.
Pedi para ela continuar acreditando nela, eu tinha que ir, precisava buscar nosso garotinho na escola. Prometi que voltaria com boas notícias em breve, afinal, não somos mulheres que nos contentamos com o não, né?
Ela planejou e eu ainda vou realizar.
Com amor,
A.